Voz da Mulher

Responsabilidade pública também é escolher quem ocupa o palco

A decisão da Prefeitura de Mulungu de cancelar a apresentação de um cantor acusado de violência doméstica durante uma festa pública vai além da programação cultural de um município do Agreste paraibano. Ela toca em um ponto sensível — e urgente — da sociedade brasileira: o lugar que damos às mulheres quando a violência se apresenta de forma explícita.

Em um país onde os números de agressões contra mulheres seguem alarmantes, gestos institucionais importam. Importam porque comunicam valores. Importam porque rompem com uma lógica histórica de tolerância, relativização ou silêncio diante da violência doméstica, especialmente quando o acusado é uma figura pública.

A prefeita Daniela Ribeiro optou por não manter, em um evento oficial, um artista que enfrenta acusações dessa natureza. Não se trata de condenação judicial antecipada, mas de responsabilidade pública. De compreender que espaços promovidos pelo poder público não podem, nem devem, normalizar situações que ferem a dignidade das mulheres.

O episódio também expõe um debate mais amplo: até que ponto a cultura, o entretenimento ou a tradição podem se sobrepor à proteção das vítimas? Por muito tempo, a resposta foi clara — e injusta. Mulheres foram desacreditadas, silenciadas ou responsabilizadas por violências que sofreram, enquanto agressores seguiam ocupando palcos, microfones e holofotes.

Quando uma gestão pública decide agir, ela envia um recado que ultrapassa os limites do município. Diz às mulheres que elas não estão sozinhas. Diz às vítimas que suas denúncias importam. E diz à sociedade que a violência doméstica não é um “assunto privado”, mas um problema coletivo, que exige posicionamento.

A Voz da Mulher existe justamente para lembrar que cada escolha institucional tem impacto simbólico. Que cada gesto conta. E que o enfrentamento à violência contra a mulher começa, muitas vezes, quando o poder público decide não se omitir.

Porque, em um cenário marcado por tantas ausências, escolher não silenciar também é uma forma de proteção.

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